29/06/2009
Após a crise, vem a bonança
Crise econômica

Quem nunca ouviu o ditado “depois da tempestade sempre vem a bonança”? É claro que, para muita gente, no atual momento de crise, essa situação de calmaria parece muito distante e talvez até esteja. Afinal, o Brasil acaba de detectar uma recessão “técnica” (queda no PIB por dois trimestres consecutivos), apesar de, em um movimento aparentemente contraditório, o presidente Lula ter anunciado um empréstimo de R$ 10 bilhões ao FMI.

Mas, como já disse em um artigo anterior aqui mesmo neste conceituado jornal, o
Correio Popular, estarmos em crise não significa que o atual momento não possa ser utilizado para crescer. É preciso aproveitar a situação para colocar tanto nosso País quanto nossas próprias vidas em uma posição muito mais confortável para quando a crise não mais existir.

Como os próprios estadunidenses, grandes responsáveis pela crise, começam a ver, o colapso econômico pelo qual estamos passando hoje deve ser encarado como uma fase de transição necessária para produzir o grande salto na qualidade de vida da maioria da população mundial, causado pelas novas tecnologias. Uma das grandes defensoras deste pensamento é a economista Carlota Pérez, professora da Universidade de Cambridge.

Em recente entrevista à revista
Veja, ela afirmou que “a economia de mercado é naturalmente instável”, ressaltando que quando ela está no auge, peca pelos excessos e, quando está em baixa, autocorrige-se. “No entanto, esta crise, em conjunto com o estouro da bolha da internet em 2000, é de uma natureza distinta. Estamos presenciando hoje um colapso de envergadura muito maior que a usual. Colapsos como esses só ocorrem a cada meio século, no meio do caminho de grandes revoluções tecnológicas”, defende.

Se pensarmos por esse viés, acredito que essa crise, que pode durar dois anos ou duas décadas, pode ser muito proveitosa para o Brasil, pois nosso País tem todas as condições de assumir a liderança na adoção de uma estratégia conjunta entre países latino-americanos. Nós já temos uma das maiores vantagens apontadas pela economista: posição vantajosa para a próxima revolução tecnológica, baseada em biotecnologia, bioeletrônica e nanotecnologia. No entanto, como alerta a própria especialista, para aproveitar todo esse potencial o País precisa ainda ampliar suas conquistas obtidas nos setores de petróleo, química, metalurgia, agropecuária e biotecnologia.

Como grande centro tecnológico, industrial, agronômico e universitário que é, Campinas — e, diria mais, a Região Metropolitana — tem todas as ferramentas para se desenvolver ainda mais em qualquer uma dessas áreas. Ou mesmo todas, dadas as características das empresas, indústrias e centros de pesquisa que nossa região abriga. Nossa cidade desenvolve tecnologia de ponta e é referência em vários setores, e tem estrutura para ser um polo essencial não apenas para o Brasil, mas para o mundo inteiro.

E é aí que entra o trabalho da Câmara e da Prefeitura: precisamos pensar longe, com antecedência, planejar e executar ações que possam garantir esse desenvolvimento para cidade e a RMC, sempre associando-o a uma melhora na qualidade de vida de nossas populações. Como legisladores, assim como o prefeito, é nossa obrigação zelar pelo bom funcionamento dos serviços, melhorias constantes na cidade, garantir infraestrutura, apoio fiscal e condições gerais para que esse desenvolvimento efetivamente aconteça e nos capacite para sair da crise não meramente tendo sobrevivido a ela, mas sim tendo aprendido e crescido durante este período. Temos todo o potencial para isso, mas precisamos garantir que ele não seja apenas isso: potencial.

Depois da crise, com certeza virá a bonança. Mas quando ela chegar, como estaremos? A ação que Campinas e cada uma das cidades brasileiras irá tomar agora é que definirá se quando a bonança chegar seremos sobreviventes tentando juntar o que sobrou após a tempestade, pessoas mais ou menos iguais que continuarão admirando um potencial que nunca se concretiza ou uma potência econômica que servirá como referência mundial em estabilidade e crescimento. Torço — e trabalho — pela última opção.

Francisco Sellin é vereador de Campinas e tenente reformado da Polícia Rodoviária

Publicado no jornal Correio Popular de 28/06/2009.

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