Francisco Sellin*
Para que serve a Polícia? Não estou aqui propondo uma reflexão filosófica nem relembrando uma famosa canção de protesto do grupo Titãs. A pergunta é simples: qual é a função exata de um policial perante á sociedade, quando exatamente um cidadão deve acionar ou não a Polícia para ajudá-lo? Ter dificuldade em responder a esta pergunta pode parecer incrível que em tempos tão midiáticos como os nossos - nos quais as crianças praticamente nascem assistindo à televisão e mexem no mouse antes de andar, nos quais a Internet revolucionou como nunca dantes o acesso à informação. Mas não é: boa parte da população não sabe quando acionar um policial.
Descobri isso na prática. Na qualidade de vereador e tenente reformado da Polícia Rodoviária, tenho sido convidado para fazer uma série de palestras em diversas comunidades católicas de Campinas e região sobre o tema da Campanha da Fraternidade 2009, designado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB): Fraternidade e Segurança Pública. Participam também destas palestras o Coronel Eugenio Pacelli Castro , comandante do 8º Batalhão da Polícia Militar do Estado de São Paulo (BPM), sediado em Campinas, e o tenente PM Giovani Eduardo.
O tema da campanha é fantástico, até por entender que a segurança começa na família e se quisermos melhorar a segurança pública, é necessário que nos envolvamos todos: família, comunidades diversas, sociedade, entidades e poderes públicos. A constituição diz que segurança é dever do estado e responsabilidade de todos, justamente por isso é preciso que todos participem, se unam. E isso, claro, inclui uma aproximação entre população e polícia.
É neste ponto que as palestras que fazemos são reveladoras. Diferentemente da voz comum, que prega que muita gente não chama a polícia por não confiar plenamente na instituição ou simplesmente por acreditar que “não resolve”, a maioria das pessoas deixa de acionar um policial simplesmente por não saber que pode ou deve fazer isso. O que mais ouvimos, retidas vezes nestes encontros, foi “se acontecer tal coisa comigo, devo ou posso chamar a polícia?”
Uma mulher, por exemplo, relatou o seguinte caso: um cidadão estava pedindo dinheiro na rua, ela não pode ajudá-lo. Ele simplesmente pegou saco de lixo, tentou agredi-la e ao final estourou o saco na porta, jogando tudo na rua. Devo chamar a polícia? Claro que deve. Trata-se de uma agressão clara, que pode voltar a ocorrer com ela ou outras pessoas, e em níveis até maiores e mais preocupantes. Mesmo que seja uma pessoa com problemas psicológicos, ela precisa receber tratamento e tem de ser impedida de novas agressões.
Acionar a polícia é importante até mesmo quando o crime ou agressão fica na tentativa. Ora vejam, a Polícia age por estatísticas: em um bairro onde a criminalidade é alta, o policiamento é mais ostensivo. Quando a criminalidade é reduzida, o planejamento é diferente, pois também o são as necessidades. Portanto, se o cidadão não faz uma queixa ou um boletim de ocorrência, na prática o crime simplesmente não existiu para a Polícia. Não chamar a polícia, portanto, aumenta as chances de novos crimes e do aumento da violência em si.
A Campanha da Fraternidade de 2009 prega que todos se empenhem efetivamente na construção da justiça social que seja garantia de segurança para todos. A paz buscada é orientada por valores humanos como a solidariedade, a fraternidade, o respeito ao “outro” e a mediação pacífica dos conflitos. Para isso, pretende desenvolver nas pessoas a capacidade de reconhecer a violência na sua realidade pessoal e social, afim de que possam se sensibilizar e se mobilizar, assumindo sua responsabilidade pessoal no que diz respeito ao problema da violência e à promoção da cultura da paz. Essa responsabilidade passa obrigatoriamente por saber o que fazer e por ajudar os demais a fazerem o correto, e aí se inclui chamar o policial quando necessário.
Assim, termino este texto com um convite e uma resposta. O convite é para que você, leitor, independentemente de sua religião ser católica ou não, abrace a proposta da campanha promovida pela CNBB. Sejamos mais humanos, vamos todos contribuir para a promoção
da cultura da paz nas pessoas, na família, na comunidade e na sociedade, até mesmo a partir das mais pequenas ações - como dar um sorriso a quem precisa e não xingar quando um motorista distraído fecha a frente no trânsito. Se quiser saber mais sobre a campanha, visite o site http://www.cnbb.org.br , onde há não só uma descrição completa como também um compêndio da preocupante escalada da violência nas cidades brasileiras.
A resposta é para a pergunta que inicia este texto e é tão simples quanto a pergunta. A Polícia serve para ajudar e proteger. Você deve chamá-la sempre que sentir que precisa de ajuda e de proteção.
*artigo publicado no jornal Correio Popular de 27/05/2009
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