Ainda que existam linguistas sérios que contestem a afirmação, toda vez que o mundo entra em crise alguém escreve um texto ou faz uma palestra dizendo que na língua chinesa “crise” se escreve “weiji”, palavra formada por dois caracteres que representam “perigo” e “oportunidade”. A partir daí, o autor da palestra ou texto discorre de maneira otimista sobre como pessoas criativas aproveitam as crises para identificar boas oportunidades e crescer.
Não tenho intimidade alguma com o idioma chinês para confirmar se a palavra realmente traz ambos os significados , ainda que tenha lido recentemente um relato no qual o professor de chinês da Universidade da Pensilvânia, Victor A. Mair, disse que a “ tradução” amplamente divulgada é “grosseiramente incorreta”. Também não condeno – pelo contrário, admiro – pessoas que “tiram o esse da crise” e usam inteligência e criatividade para crescer a qualquer momento vivido pelo mercado.
Mas de uma coisa tenho certeza: não estamos na China e, mesmo que a lenda fosse verdadeira, creio que todos ganhariam mais se víssemos na palavra crise a junção dos termos “perigo” e “responsabilidade”. Digo isso porque acredito que todo cidadão e, em especial, um legislador, deve sempre agir de maneira responsável e coerente, mas, em tempos de crise, a responsabilidade é dobrada.
Os municípios da Região Metropolitana de Campinas já constataram os primeiros impactos dos abalos no mercado financeiro: de setembro a dezembro de 2008, a arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), considerado por muitos como a principal fonte de receita dos municípios, apresentou uma queda de 14,6%, caindo de R$ 181,6 milhões para R$ 154,9 milhões – os repasses da União tiveram queda ainda maior no mesmo período, 20,4%, encolhendo de R$ 67,4 mi para R$ 53,6 mi.
Ao mesmo tempo, o secretário municipal de finanças, Paulo Mallmann, trouxe recentemente uma notícia à primeira vista alvissareira: Campinas aumentou sua arrecadação em IPTU e IPVA. Aumentou até porque, diferentemente de outros anos, muita gente pagou com antecedência e à vista. Entretanto, olhando-se de perto as razões alegadas por muitos contribuintes para antecipar os pagamentos, o observador atento descobre (para sua surpresa) que também elas são um impacto da crise. A maioria pagou antes e à vista porque “com a crise que vem por aí ninguém sabe o dia de amanhã”, então é melhor pagar tudo de uma vez e não correr o risco de ficar devendo para o governo - que cobra com eficiência, juros, multas e punições das mais diversas.
O que esse cenário de crise diz, então, a nós, legisladores municipais? Diz que é hora de tomarmos ainda mais cuidado com nossas ações. É neste momento que a Câmara deve agir com ainda mais parcimônia, não gerando custos desnecessários, e com eficiência para aprovar leis que não onerem a cidade, bem como outras que tragam recursos ou melhorem a aplicação destes recursos no município.
É hora de a Câmara Municipal agir como um instrumento cada vez mais afinado com as necessidades reais do presente e, principalmente, do futuro da cidade. Cabe aos vereadores dobrar sua atenção ao que discutem, de modo a evitar perda de tempo (e tempo é dinheiro, já diz o conhecido adágio popular) e colaborar com Campinas e seus cidadãos da forma mais eficiente possível.
Mais do que nunca, é hora de nós, legisladores, agirmos com união e harmonia. E é bom deixar claro: isso não significa agirmos sempre de maneira igual e termos a mesma opinião. Significa, isso sim, mantermos nossas individualidades e ideologias, mas não deixar que eventuais diferenças de opinião impeçam ações rápidas, coerentes e coesas de nossa Casa de Leis.
A crise econômica mundial é real e inexorável. Todos sabem que ela já chegou, mas nenhum especialista se arisca a dizer por quanto tempo irá durar. É certo, porém, que nossas ações – seja como legisladores, seja como cidadãos – determinarão se a crise irá durar mais ou menos. Vamos todos, então, agir com responsabilidade redobrada, fazendo nossa parte para que a duração da crise seja a menor possível.
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