O ônus do progresso
FRANCISCO SELLIN
Problemas de trânsito não são exclusivos das grandes metrópoles dos tempos modernos. Em 1956, quando comecei a trabalhar em Campinas como guarda civil, a cidade tinha cerca de 250 mil habitantes e uma frota de veículos infinitamente menor ao número de moradores. Ainda assim, havia um grave problema no tráfego: as linhas de bonde tinham trilho único, o que impossibilitava que trafegassem simultaneamente em duas mãos. O bonde descia pelo trilho e tinha que subir por ele mesmo, “na contramão”, impossibilitando a passagem de outros e gerando uma quantidade significativa de atropelamentos e batidas.
Tempos depois, em 1989, quando assumi pela primeira vez o cargo de vereador, o bonde era apenas uma memória e o número de veículos havia crescido exponencialmente. Já se falava então em mudanças no Centro, em se fazer calçadões e por aí afora. E nos anos de 1990, como muitos cidadãos de Campinas, este vereador era motorista e usuário do sistema de transportes quando foi implantado o Sistema Rótula.
Foram mudanças então consideradas radicais e que geraram de imediato duras críticas de diversos motoristas e cidadãos. Críticas muitas vezes exageradas e pouco educadas, mas não inesperadas. Afinal, tratava-se, de certa forma, não só de uma mudança nas vias de transporte, mas também de uma mudança cultural: muita gente fazia o mesmo caminho há décadas e não aceitava que “sua” rua ou avenida mudara de sentido.
Quantas vezes não houve, por exemplo, quem entrasse na contramão na Avenida Barão de Itapura sem querer ou até mesmo de propósito, “em protesto” à mudança. Passado o impacto e o desconforto inicial das alterações — e, claro, feito um ou outro ajuste aqui e ali cuja teoria só pode ser verificada na prática — foi inequívoco reconhecer que o trânsito de Campinas melhorou e que a população saiu ganhando.
Entendo que o mesmo vem ocorrendo com as mudanças feitas recentemente pela Secretaria Municipal de Trânsito de nossa cidade. Mudanças sempre causam um certo desconforto, ainda mais no trânsito, afinal quando se mexe em uma rua, ela automaticamente tem reflexo em outras. Além disso, muitas alterações que funcionam no papel carecem de ajustes que só podem ser detectados depois de implementada a mudança total.
Em recente debate realizado sobre o assunto na Câmara Municipal de Campinas, ainda que opiniões diferentes sobre as soluções fossem colocadas, houve um consenso entre todos os vereadores: o trânsito da cidade tem um volume gigantesco e precisa de adequações.
Os números reforçam isso. Campinas tem 1,1 milhão de habitantes e 680 mil veículos cadastrados na cidade, fora outros 160 mil veículos flutuantes. E, como publicou o próprio Correio Popular em sua edição de 9 de fevereiro, a frota cresce bem mais que a estrutura do trânsito, em média o número total de veículos transitando pela cidade aumenta em quatro unidades por hora.
Mas, na mesma edição, nosso sempre atento jornal já mostra que no dia anterior (8/2) as mudanças recentes estavam fazendo efeito e o trânsito já estava fluindo melhor. E antes mesmo disso, uma averiguação realizada pela Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec), cujo resultado foi divulgado em 4 de fevereiro, já revelara que a mudança no Corredor Central reduziu em 25% o tempo das viagens no transporte coletivo. Ou seja, as mudanças causaram desconforto, mas estão fazendo que os cidadãos cheguem mais cedo a seus locais de trabalho e a suas residências.
Faço aqui estas considerações na tentativa de conscientizar a todos que mudanças são necessárias e que, infelizmente, há um preço a ser pago por elas. Campinas cresce cada vez mais e há um planejamento para que a cidade e seu tráfego se adéquem a este crescimento: garagens subterrâneas, trens sobre pneus e outras soluções já estão aprovadas para ser implementadas.
A mudança feita nas vias também é uma destas soluções e, ainda que careça de ajustes já reconhecidos pelo próprio secretário, precisa ser realizada. O desconforto inicial é o ônus gerado pelo progresso de Campinas, mas um ônus que, graças a um bom planejamento, será rapidamente superado pelos benefícios gerados na fluidez do trânsito e na melhoria da qualidade de vida em nossa cidade.
- Francisco Sellin é tenente reformado da Polícia Rodoviária, vereador e líder de governo na Câmara de Campinas
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