Francisco Sellin*
A associação que o brasileiro faz quando ouve a palavra “motocicleta” geralmente nada tem a ver com saúde. Para alguns, moto evoca liberdade, aventura e até mesmo certo grau de risco. Para outros, a conexão é com acidentes e fatalidades, uma relação que não ocorre à toa. Seja pela fragilidade do veículo de duas rodas perante o de quatro, seja por imperícia ou imprudência (de motociclistas, motoristas e até pedestres), o número de vítimas de acidentes envolvendo motocicletas é assustadoramente alto. De acordo com o Instituto Brasileiro de Segurança no Trânsito, as mortes decorrentes de acidente de moto aumentaram mil por cento na última década. Só em 2008 foram cerca de dez mil motociclistas e caronas mortos em todo o país, e mais de 500 mil feridos.
Um número que se torna ainda mais triste quando sabemos que ele poderia ser reduzido drasticamente se motociclistas e motoristas tivessem mais cautela, cuidassem melhor da manutenção de seus veículos, respeitassem as leis de trânsito e , no caso dos condutores de moto, usassem equipamento adequado de segurança. Felizmente, ainda que de maneira lenta, esse cenário começa a mudar, seja pelas inúmeras campanhas de trânsito e de proteção à vida feita pelos mais diversos órgãos, seja pela conscientização própria de motoristas e motociclistas.
Aliás, neste sentido, será muito importante em Campinas a regularização da profissão de motoboy, projeto anunciado recentemente pela Secretaria Municipal de Transportes e que deverá ser votado no ano que vem pela Câmara Municipal. A partir do primeiro semestre de 2010, os hoje 3 mil motoboys da cidade terão de seguir normas de segurança, como o uso de coletes retrorrefletivos e equipar as motocicletas com antenas anticerol, e deverão passar por um curso específico de capacitação e vistorias semestrais rigorosas. Com um detalhe: só poderão trabalhar como motoboys maiores de 21 anos que possuam habilitação na categoria por um tempo mínimo de dois anos.
Mesmo enquanto essa mudança não é concretizada, a imagem da moto ligada à vida e à proteção já começa a crescer em nossa cidade. Afinal, Campinas recebeu no dia 28 de outubro deste ano as chaves de quatro motolâncias que passaram a integrar o sistema do Samu (Serviço de Atendimento Móvel em Urgência).
Por que utilizar motos para levar os primeiros socorrros a quem precisa de atendimento de urgência? Basta olhar para as ruas de Campinas em horário de pico para saber: uma ambulância tradicional com a sirene ligada, obrigada a enfrentar o tráfego da cidade, leva em média 13 minutos para chegar até quem precisa ser socorrido. A motolância leva cinco minutos para cobrir em segurança o mesmo trajeto. Sete minutos a menos, uma diferença pequena e, ao mesmo tempo, gigantesca, pois pode significar a diferença entre sobreviver e morrer em boa parte dos casos.
Não posso deixar de dizer que, para mim, a relação entre motos e vida não vem de hoje: fui policial rodoviário e, entre as inúmeras vezes em que usei o veículo para ajudar cidadãos em apuros, uma marcou a fundo. Aconteceu em 25 de novembro de 1974, quando houve um grave acidente na estrada entre Tapiratiba e Guaxupé. O trânsito estava parado e a ambulância que deveria transportar a moça tinha dificuldade para deixar o local e retirar da vítima, uma moça chamada Sandra, que precisava de cuidados urgentes: o choque do veículo causara, entre outras, uma fratura no crânio.
Graças a minha moto consegui vencer o tráfego, escoltar e abrir caminho para que ela fosse levada a um hospital, em Campinas. Segundo o médico que a atendeu, Sandra só sobreviveu porque a escolta reduziu o tempo de chegada em mais de 40 minutos. Sandra se recuperou e, inclusive, me convidou para posteriormente ser padrinho de seu casamento e até mesmo de seu filho, que foi batizado com meu nome. Uma homenagem que me emociona ainda hoje, mas que sequer precisava ser feita: estava ali fazendo meu trabalho e, graças à minha moto, consegui .
Por isso, amigos leitores, quando ouço alguém falar em motocicleta, a conexão mental que faço é e sempre será com o conceito de vida, de salvar vidas. Espero que, com a chegada das motolâncias a Campinas, a regularização dos motoboys e com a conscientização e redução de acidentes de trânsito, em breve também vocês possam fazer a mesma relação toda vez em que ouvirem o som do motor de uma moto passando por perto.
*Francisco Sellin é vereador, líder de governo na Câmara e tenente reformado da Polícia Rodoviária
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