Francisco Sellin*
Nasci na fazenda Santa Genebra, aquela onde surgiu o Boi Falô - passava sempre pelo lugar onde se originou a lenda quando perfazia a pé os oito quilômetros e meio que separavam a fazenda e a escola. Dos 14 aos 19 anos, fui tratorista para ganhar meu sustento e ajudar a família. Qual não foi minha surpresa, então, ao descobrir que o futuro da economia mundial passa justamente por esta profissão: tratorista.
O investidor americano James Rogers – considerado um dos papas da área de finanças – disse o seguinte ao se referir à Crise Econômica Mundial e às saídas para ela: “Nos próximos anos, haverá poucos empregos em Wall Street. Os corretores de investimentos terão de dirigir táxis. Os mais espertos, contudo, aprenderão a dirigir tratores.”
A frase é brincalhona, mas com ela Rogers – que ganhou fama no mercado financeiro nos anos 70 quando, junto com George Soros, criou um fundo de investimentos que obteve a maior valorização da história do capitalismo ( 4 000%) em seus primeiros dez anos - revela um pensamento mais profundo. A razão para os mais inteligentes se tornarem tratoristas reside no fato de que, explica ele, os fazendeiros serão os verdadeiros ricos dos próximos trinta anos, já que a agricultura é a única área da economia mundial cujos fundamentos estão realmente melhorando e, com isso, deve ser o primeiro setor a crescer quando o mundo sair da crise.
E é aí que a notícia realmente fica boa para o Brasil e, em especial, para a Região Metropolitana de Campinas (RMC). Nosso país tem hoje um agronegócio bastante expressivo e competitivo, que é responsável por 25% do total da riqueza brasileira. E temos um potencial muito maior, graças a abundância de recursos naturais e aos estudos e pesquisas que desenvolvemos na área.
Nem preciso dizer que Campinas tem grande importância nesse desenvolvimento científico, seja por nosso insuperável e pioneiro Instituto Agronômico (IAC), seja pela competência de nossas universidades, em especial a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
A cidade também tem sua forte vertente de produção, enraizada na época em que a economia do país girava em torno do café e que soube crescer e se diversificar ao longo dos tempos. E a RMC como um todo é fortíssima na produção: vale lembrar que Vinhedo, Valinhos, Jundiaí, Jarinu, Louveira, Indaiatuba, Itupeva e outras três dezenas de municípios compõem o Circuito das Frutas e se destacam pela produção de morango, caqui, pêssego, goiaba, figo e acerola, entre outros.
Posso ampliar ainda mais o foco e falar da alta produção do estado de São Paulo e de vários outros municípios e regiões brasileiras, mas creio que o ponto principal do argumento já está dado: se a riqueza se consolidará na agricultura, o Brasil tem tudo para enriquecer mais do que os demais países. Mas, mais uma vez, é preciso ressaltar que potencial puro e simples não leva a nada.
Se há algo que aprendi como alguém que trabalha há quase sete décadas sem parar, é que só o trabalho duro dá frutos. Desde Pero Vaz de Caminha se diz que no Brasil em se plantando tudo dá, mas é preciso plantar, zelar, cuidar, fazer o melhor para que a safra realmente floresça. Falo não somente do trabalho literal do campo, mas de todo aquele que o envolve. Não é de hoje que o país tem uma política de abastecimento, mas carece de uma política agrícola. Explico: historicamente nossas leis e regras, incentivos e taxas, visam ao consumo mais imediato e não a um futuro planejado.
Aqui, em nossa Câmara Municipal, podemos pensar em maneiras de ajudar a mudar esse pensamento mas a grande mudança tem de vir da esfera estadual e federal, que deve aproveitar o momento de estabilidade política e o fato de que a crise nos afetou menos para transformar potencial e vantagem momentânea em realidade e riqueza perene. Nesse sentido, também é preciso dar especial atenção ao pequeno agricultor e ao agricultor familiar, pois temos muitos profissionais na região que se encaixam nesse perfil, por vezes dependendo exclusivamente de seus pequenos cultivos para sustentarem suas famílias.
A semente está aí, as condições climáticas são ótimas, a terra é fértil. Mas cabe ao tratorista povo trabalhar para enriquecer, e ao agricultor governo garantir que esse enriquecimento seja possível.
* Publicado no jornal Correio Popular em 10/09/2009 |